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PENSAMENTOS GEOGRÁFICOS do PIBIDIANO DE GEOGRAFIA JÚNIOR CESAR 

 

"Pra você que faz cara feia quando eu digo que faço GEOGRAFIA ou solta um "Hum, que legal" extremamente irônico...

Só tenho a dizer que a amplicidade dessa ciência me torna a cada dia uma pessoa melhor e aumenta ainda mais o meu amor pelas diversas Geografias que rodeiam a todos. ...   Minha graduação me permite ousar a te falar um pouco sobre o universo ou da formação da Terra. Posso te explanar sobre a dicotomia do urbano X rural ou te fazer me odiar falando de política.   Posso ainda demonstrar como a dispersão dos biomas estão intimamente ligados à composição do solo, ao clima e dentre outros fatores.   Posso te ensinar a diferença de clima e tempo e te fazer perceber o quanto é engraçado quando você diz "Como está o clima hoje?" e te aborrecer falando de economia ou dos males do capitalismo.   Posso mostrar rochas, minerais e o dinamismo das formas e estruturas do relevo.   Posso ainda, descobrir contigo outras cidades, estados, países e continentes, e outros planetas também!   Conto histórias também, do PR, do Brasil e do mundo e quebro a cabeça com problemas matemáticos da nossa amiga Cartografia.   Questiono os problemas da educação geográfica e modifico meu modo de ensinar, para despertar a busca sagaz em aprender Geografia.   São tantas ciências que a Geografia engloba, que posso ter me esquecido de algo que está ao meu domínio. Mas é isso, não existe uma ciência melhor do que a outra, mas se existisse, a Geografia seria uma forte candidata!   A Geografia mexeu comigo e me fez amá-la incondicionalmente.   Enfim, a Geografia é uma mãe que te acolhe e te faz refletir, questionar e propor soluções para o mundo. Ela está em toda parte, até mesmo dentro de você."

 

 

 

 

 

 

 


UMA OUTRA EDUCAÇÃO É POSSÍVEL?

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Coronavírus anuncia revolução no modo de vida que conhecemos

Domenico De Masi

A Itália de onde escrevo, um dos países mais vivazes e alegres do mundo, é hoje apenas um deserto. Cada um dos seus 60 milhões de habitantes acha que é imortal, que o vírus não o tocará, que irá matar não ele mas alguma outra pessoa. Porém, no silêncio do seu coração, cada um sabe que essa ilusão é pueril e que essa pandemia misteriosa, abstrata e tangível ao mesmo tempo, escolhe suas vítimas ao acaso, como numa roleta russa.

Em algum tempo vamos saber se o vírus pode ser debelado ou se nos matará em massa, assim como fez no século passado a famosa gripe espanhola, que matou 1 milhão de pessoas por semana durante 25 semanas seguidas.

Moro há 50 anos no centro de Roma, na rua mais movimentada da cidade, que leva da praça Veneza à Basílica de São Pedro.

Normalmente, essa rua está 24 horas por dia entupida de trânsito, de turistas e peregrinos. Há duas semanas, está muda e deserta. Só de vez em quando ouve-se o grito de uma sirene de ambulância e algum sem-teto passa. A cidade inteira está fantasmagórica como a Los Angeles de “Blade Runner”. Aqui, porém, desapareceram até os replicantes extraterrestres.

Fechados os lugares públicos, as escolas, as fábricas, as lojas, as estações, os portos e os aeroportos, a Itália é agora um país separado do resto da Europa e do mundo. Cada cidade está parada, cada família trancafiada em casa. Quem sai à revelia dos pouquíssimos motivos permitidos é interceptado imediatamente pelas rondas policiais que aplicam penas bastante severas.

Os gregos antigos consideravam que, quando algo é indispensável e todavia impossível, a situação é trágica. Foram necessários 50 dias, milhares de doentes e mortos para que os italianos entendessem que a situação é, enfim, irremediavelmente trágica.

O que significa uma pandemia como essa para Roma, para a Itália, para a humanidade como um todo? Como ela age nas mentes e nos corações de todos nós que, armados com tecnologias poderosas e inteligência artificial, até poucas semanas atrás nos sentíamos os senhores do céu e da terra?

Subitamente nos descobrimos frágeis pigmeus diante da onipotência imaterial de um vírus que, por vias misteriosas, escapou de um morcego chinês para vir matar homens e mulheres em nossas cidades.

A sujeição a um vírus desconhecido, para o qual não há nem cura nem vacina, transformou a Itália numa enorme caserna blindada e os 60 milhões de italianos noutros tantos dóceis soldadinhos empenhados num gigantesco exercício militar no qual estão obrigados a aprender a verdade que antes ignoravam obstinadamente. O que não quer dizer que irão apreendê-la.

Numa Europa onde, até ontem, era permitida a livre circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro, agora cada país, em vez de abraçar uma colaboração ainda mais solidária com os demais, tranca suas próprias fronteiras, iludindo-se de forma cínica e infantil que seja possível deter o vírus com barreiras aduaneiras.

Contudo, hoje, mais do que nunca, os soberanismos parecem tentativas fantasiosas contra a globalização. Hoje, mais do que nunca, a difusão da pandemia e sua rápida volta ao mundo demonstraram que deter a globalização é como se opor à força de gravidade. Nosso planeta já é aquela “aldeia global” da qual falava McLuhan, unida por infortúnios e pela vontade de viver, precisando de uma direção unitária, capaz de coordenar a ação sinérgica de todos os povos que desejam se salvar. Nessa aldeia global, nenhum homem, nenhum país é uma ilha.

Talvez tenhamos aprendido que o caso agora é de vida ou morte e que ninguém pode enfrentar sozinho um vírus tão ardiloso e potente. Por isso, são necessários recursos, inteligências, competências, ações e instituições coletivas. Coordenação e coesão geral. É necessária uma cabine de comando, um governo competente que tenha autoridade, uma equipe formada por um vértice político de grande inteligência e apoiada pelos máximos representantes das ciências médicas, da economia, da sociologia, da psicologia social e da comunicação.

Talvez tenhamos aprendido que os fatos e os dados devem prevalecer sobre as opiniões, a competência reconhecida deva prevalecer sobre o simples bom senso, a prudência e a gradualidade das intervenções devem prevalecer às tomadas de decisões arrogantes e à improvisação imprudente. Por outro lado, é necessário tolerar os erros de quem possui a responsabilidade terrível de tomar decisões, líder que deve ser generosamente amparado para que sejam melhoradas.

Talvez tenhamos aprendido que, perante um vírus desconhecido, assim como diante de um problema complexo, as decisões sobre a pandemia não apenas devem ser tomadas pelas pessoas competentes mas também ser comunicadas de forma unívoca, com autoridade, prontamente, de forma abrangente e clara. Todo o alarmismo, todo o exagero, toda a subestimação é terrível porque confunde as ideias e nos faz perder um tempo precioso. Carência e excesso de informações são parâmetros nocivos. Talk shows superficiais e fake news delirantes levam ao cinismo e à desumanização.

Talvez tenhamos aprendido que, nos países civilizados, o bem-estar é uma conquista irrenunciável. Por sorte e pela sabedoria dos nossos pais, a Constituição italiana de 1948 considera a saúde como um direito fundamental de cada ser humano. Já a reforma sanitária de 1978 instituiu um serviço nacional universal que considera a saúde não como meramente a ausência de doença, mas como o bem-estar físico, psíquico e social completo.

Graças a esse regime de saúde, todos os residentes (e também os turistas) fruem dos cuidados médicos sem qualquer custo. Isso nos possibilitou descobrir e curar prontamente os contágios e reduzir o número de mortes.

No país mais rico e mais poderoso do mundo, os EUA, onde o bem-estar é estupidamente mortificado, os suspeitos de Covid-19 precisam desembolsar o equivalente a 1.200 euros pelo teste. O vírus corona, ao se difundir, causaria uma verdadeira hecatombe entre 90 milhões de estadunidenses que, desprovidos de seguro-saúde, seriam cinicamente rejeitados pelos hospitais.

A propaganda neoliberal, que se alastrou sob a bandeira insana de Reagan e Thatcher, desacreditou tudo o que é público em favor do setor privado. Porém, pelo contrário, nessas semanas trágicas, a reação eficiente dos hospitais e dos funcionários públicos diante do surgimento da pandemia nos ensinou que a nossa saúde pública, da mesma forma que outras funções públicas, dispõe, muito mais do que o setor privado, de pessoas preparadas profissionalmente, motivadas e generosas até o heroísmo.

Toda noite, às 18h, todas as janelas da Itália se escancaram e cada um canta ou toca o hino nacional para agradecer aos médicos e a todos os profissionais da saúde.

A pandemia está nos ensinando que o pensamento de Keynes permanece precioso. Em 1980, o prêmio Nobel Robert Lucas Jr. observou: “Não é possível encontrar nenhum bom economista com menos de 40 anos que se diga ‘keynesiano’. Nas universidades, as teorias keynesianas não são levadas a sério e provocam sorrisinhos de superioridade”.

Hoje, essa crise histórica, com seus mortos e com suas tragédias, se porum lado nos leva à recessão, por outro nos lembra que, para evitar uma crise irreparável, em vez de políticas de austeridade, é preferível dar lugar aos investimentos públicos maciços e “open-ended”, ainda que isso leve ao déficit público.

Talvez tenhamos aprendido tudo isso e várias outras coisas com aquilo que ocorreu fora do recinto doméstico, isto é, entre o governo e todo o povo do país. Entretanto, hoje, a nossa vida está segregada entre as paredes domésticas. Todos estão restritos entre as quatro paredes da própria casa: não só as famílias que vivem em harmonia e acordo, mas também os solitários, os casais em crise e os núcleos familiares em que o diálogo entre pais e filhos há muito tempo andava claudicante.

A sociedade industrial nos habituara a separar o local de trabalho do local de vida, nos fazendo passar a maior parte do nosso tempo com chefes e colegas nas empresas: os que a sociologia chama de grupos “secundários”, frios, formais, nos quais as relações são quase exclusivamente profissionais. Uma parte mínima do nosso tempo nos via reunidos em família ou com os amigos, ou seja, com grupos “primários”, calorosos, informais, envolventes.

De repente, o descanso compulsório em casa nos obrigou de forma inédita ao isolamento total, a uma convivência forçada que para alguns parece agradável e tranquilizadora, mas que para outros é invasiva e até opressora. Os mais sortudos conseguem transformar o ócio depressivo em ócio criativo, conjugando a leitura, o estudo, o lúdico com a parcela de trabalho que é possível desempenhar em regime de “smart working”.

Sabíamos teoricamente que essa modalidade de trabalho à distância permite aos trabalhadores uma preciosa economia de tempo, dinheiro, stress e alienação; e às empresas, evita os microconflitos, despesas na manutenção do local de trabalho e promove incremento da eficiência, recuperando de 15 a 20% da produtividade; à coletividade, evita a poluição, o entupimento de trânsito e despesas de manutenção das estradas.

Agora que 10 milhões de italianos, forçados pelo vírus, rapidamente adotaram o teletrabalho, minimizando seu sentimento de inutilidade e os danos à economia nacional, nos perguntamos por que as empresas não haviam adotado antes uma forma de organização tão eficaz e enxuta. A resposta está naquilo que os antropólogos definem como “cultural gap” —lacuna cultural— das empresas, dos sindicatos, dos chefes.

O tempo livre que, até um mês atrás, nos parecia um luxo raro, hoje abunda. O espaço, que nas cidades vazias se dilatou, por sua vez falta nas casas. Por isso, estamos apreciando a ajuda que nos chega da internet, graças à qual, mesmo permanecendo forçosamente distantes, é possível nos reunirmos virtualmente, nos informarmos, nos confrontarmos, nos encorajarmos.

Nessa reclusão, os jovens têm a maior vantagem, graças à sua facilidade com os computadores, enquanto os velhos têm mais vantagem por serem mais independentes, mais acostumados a estar em casa, fazendo pequenos trabalhos e jogos sedentários, contentando-se com a televisão.

Em todos se insinua o medo de que, mais cedo ou mais tarde, possa terminar o abastecimento dos mantimentos. O colapso da economia torna-se cada vez mais inevitável, já que tanto a produção como o consumo encontram-se bloqueados.

Há alguns anos, Kennet Building, um dos pais da teoria geral dos sistemas, comentando a sociedade opulenta, afirmou: “Quem acredita na possibilidade do crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou é economista”. E Serge Latouche acrescentou: “O drama é que agora somos todos mais ou menos economistas. Aonde estamos nos encaminhando? Diretamente contra um muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freios que irá se chocar contra os limites do planeta”. Latouche propõe abandonar a sociedade de consumo com um decrescimento planificado, progressivo e sereno.

A marcha a ré e os freios que a cultura neoliberal se recusou obstinadamente a usar agora foram desencadeados: não graças a uma revolução violenta, mas sim a um vírus invisível que um morcego soprou sobre a sociedade opulenta, obrigando-a a se repensar.

“A Peste” (1947), obra-prima profética de Albert Camus, talvez possa nos ajudar nesse repensar. Naquele romance, a ciência era protagonista, ou seja, o médico Bernardo Rieux, ocupado até o fim, como médico e como homem, de socorrer os contagiados, enquanto “o cheiro de morte emburrecia todos os que não matava”.

Hoje, nós também, como o nosso tão humano irmão Rieux, estamos presos num limbo entre o pesar e a esperança, no qual temos que aprender que “a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado”; que “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, que pode permanecer adormecido por décadas nos móveis e nas roupas, que espera pacientemente nos quartos, nas adegas, nas malas, nos lenços e nos papéis, que talvez chegue o dia em que, infortúnio ou lição aos homens, a peste acordará seus ratos para mandá-los morrer numa cidade feliz”.

Domenico De Masi, sociólogo italiano, é autor dos livros "Ócio Criativo" e "O Futuro do Trabalho".

Tradução de Francesca Cricelli.

 

 

 

Geografia pode ser a chave para lutar contra o surto de

COVID-19

A geografia está desempenhando um papel importante na luta contra o vírus SARS-CoV-2, o qual causa a enfermidade COVID-19

Por Marshall Shepherd*

Sou Cientista Atmosférico com três graduações em meteorologia. Assim, minha “casa” na Universidade da Georgia é o Departamento de Geografia.

Como muitos dos que podem estar lendo agora mesmo, eu também tinha um conhecimento estreito da Geografia quando saí da NASA para unir-me à Faculdade da Universidade.

Através dos anos, seguramente tenho escutado as pessoas descrevendo a geografia como um conjunto de mapas, capitais, rios e coisas assim. E o certo é que estas “coisas” definitivamente são parte da disciplina, mas existe muito mais complexidade e rigor que a simples memorização de feitos ou as memórias dos concursos de geografia básica.

A Geografia é única para unir as ciências sociais e as ciências naturais. Existem dois ramos principais da geografia: Humana e Física.

A Geografia Humana se interessa pelos aspectos espaciais da existência humana. Os geógrafos físicos estudam os padrões dos climas, os acidentes geográficos, a vegetação, os solos e a água. 

Os geógrafos utilizam muitas ferramentas e técnicas em seu trabalho, e as tecnologias geográficas são cada vez mais importantes para entender nosso complexo mundo. Entre estas, incluímos os Sistemas de Informação Geográfica (GIS), Sensores Remotos, Sistemas de Posicionamento Global (GPS) e o mapeamento online como o Google Earth.

Tenho notado que a disciplina de geografia está desempenhando papéis muito importantes na luta contra o vírus SARS-CoV-2, o qual causa a enfermidade COVID-19. Aqui estão alguns deles.

Rastreio do Coronavírus. Um exemplo da universidade Johns Hopkins:

Os Sistemas de Informação Geográfica (GIS) são a maneira de organizar os dados geográficos e espaciais. Você provavelmente não note, mas o Waze ou Google Maps estão dentro do “reino” da Ciência GIS.

É provável que você se beneficie diariamente de ambas aplicações. A universidad de Johns Hopkins está dando suporte permanente a um excelente site de rastreio do Coronavirus, o qual reúne a informação de múltiplas fontes de dados.

“A universidad Johns Hopkins inclui isenções de responsabilidade nas notas do site sobre todas as representações e garantias com respeito ao mesmo, incluindo exatidão e aptidão para seu uso e comerciabilidade”

Eles estão sendo cautelosos para que o site não se converta ou seja utilizado como um “guia médico”. Os pesquisadores e outras instituições, incluindo a Universidade de Washington e a Universidade da Georgia, também têm desenvolvido ferramentas de rastreio disponíveis publicamente.

A ESRI é uma das organizações líderes dentro do âmbito geográfico e um provedor de recursos GIS. Encontrei um tutorial de Coronavírus convincente elaborado por ‘Bytheway’ no site da ESRI, com lições e atividades instrutivas. Kenneth Field também oferece um excelente blog post no site da ESRI sobre a responsabilidade de mapear o coronavírus. Minha amiga e colega, a  Dra. Dawn Wright, é Cientista Chefe na ESRI. Recentemente enviou um tweet com um fantástico site com abundância de informação geográfica sobre o surto de coronavírus em Singapura.

Coronaviruses 101 World Health Organization (WHO) vis Esri Website

Muitos estudantes Secundários, incluindo minha filha no ano anterior, tiveram a matéria de Geografia Humana Avançada. Isso me encanta, porque isto significa expor os estudantes a aspectos da disciplina que pulverizam as percepções errôneas sobre “mapas e capitais”.

O site da Mesa Diretiva de Colleges Avançados estabelece este conceito nos estudantes de geografia humana: “Explorar como os humanos têm entendido, utilizado e mudado a superfície da Terra”. Os tópicos devem incluir os padrões de migração, população, ecologia política, justiça ambiental, urbanização e mais.

O site da Royal Geographic Society me direcionou a uma interessante pesquisa que compreende aspectos da disciplina de geografia humana e o Coronavírus. Um estudo de 2011 intitulado “As políticas a escala, do manejo de enfermidades infecciosas em uma era de viagens aéreas com liberdade” foi publicado em Transações do Instituto de geógrafos Britânicos (Transactions of the Institute of British Geographers). Ainda que esse estudo seja mais focado no Ebola, tem conexões no tempo com o problema do coronavírus.

Steve Hinchliffe é Professor de Geografia Humana na Universidade de Exeter e um expert em biosegurança, risco alimentar, relações humano-não humano e conservação da natureza. Ele e seus colegas publicaram um livro intitulado Vidas Patológicas: Enfermidade, Espaço e Biopolíticas (Pathological Lives: Disease, Space, and Biopolitics). Ele escreveu em um blog post de 2016, “Eu chamo um nó de micróbios, anfitriões, ambientes e economias de ‘vidas patológicas’”

“O termo (Vidas patológicas) nos permite investigar como estas vidas se tornaram perigosas até para elas mesmas em um mundo de rendimento acelerado e intensidade biológica”

Steve Hinchliffe, Professor de Geografia Humana na universidad de Exeter

Também existe um corpo significativo de disciplinas sobre pesquisa escolar na interseção das enfermidades geográficas e infecciosas. Por exemplo,  um estudo de 2019 no diário Infecções, Genética e Evolução examinou a estrutura geográfica do coronavírus relacionados com a SARS de morcegos.

Uma conclusão resultou que a SARSr-CoVs tem uma estrutura geográfica diferente em termos de evolução e transmissão.

É claro que a geografia física também desempenha um papel no Coronavírus. Em um artigo anterior da Forbes, discuti sobre o potencial das implicações climatológicas da enfermidade e se a transição da estação quente no Hemisfério Norte poderia deter o contágio do coronavírus.

A breve resposta dos Centros para a Prevenção e Controle de Enfermidades (CDC) foi “não sabemos,” especialmente desde que a enfermidade tem prosperado em lugares quentes e úmidos até o momento. A resposta mais longa foi uma discussão sobre a nascente literatura sugerindo que a influenza, coronavírus e outras enfermidades relacionadas poderiam prosperar em lugares novos e por períodos de tempo mais longos à medida em que o clima continua esquentando.

Existem numerosos exemplos que lhes poderia ter dado; mas minha meta principal foi utilizar o coronavírus como um motivo para ensinar-lhes sobre geografia. Agora, vão lavar as mãos intensamente com sabão e sejam cuidadosos lá fora.

*Dr. J. Marshall Shepherd, líder internacional expert em clima, foi Presidente da Sociedade Meteorológica Americana(AMS) em 2013, e é o Diretor do Programa de Ciências Atmosféricas da Universidade da Georgia (UGA). O Dr. Shepherd é Professor Distinto da Associação Atlética da Georgia e é o anfitrião do Podcast sobre os apaixonados do Clima no Weather Channel, que pode ser encontrado em qualquer distribuidor de Podcast. Antes da UGA, o Dr. Shepherd passou 12 anos como meteorólogo pesquisador no Centro NASA-Goddard Space Flight Center e foi Cientista Adjunto para a Missão de Medida da Precipitação Global (GPM). Em 2004, foi honrado com o prestigioso prêmio PECASE na Casa Branca. Também tem recebido grandes honras da Sociedade Meteorológica Americana, Associação Americana de Geógrafos e da Fundação Captain Planet. Shepherd é visto frequentemente como um expert em clima para a maioria da mídia, a Casa Branca e no Congreso americano. Tem mais de 80 publicações de nível expert na Academia e numerosas editorias. O Dr. Shepherd recebeu seu B.S., M.S. e PhD em Meteorologia Física pela Florida State University.

 

  

Quem nasce no Brasil é o quê mesmo?

24 de Fevereiro de 2020, por Carlos Walter Porto-Gonçalves

brasileiro é sinônimo de exploração

brasileiro é sinônimo de exploração

 

Uma curiosidade um tanto infantil talvez possa nos ser altamente reveladora. Afinal, o adjetivo pátrio, aquele que nos indica origem ou procedência de alguém, geralmente se expressa pelos sufixos ense ou ês ou, ainda ano. Assim, temos o francês, o português, o inglês entre tantos. Ou ainda, o italiano, o peruano, o venezuelano, o equatoriano e o norte-americano entre outros tais.

Há ainda outras variações, como o paraguaio e o guatemalteco, que nos parecem muito originais e para os quais não encontramos paralelo. O mesmo se passa com brasileiro. Embora os franceses nos chamem bresilien, os ingleses brazilian e os italianos brasiliano, nós, insistimos em nos chamar brasileiros usando esse sufixo eiro que não se aplica a nenhum outro adjetivo pátrio. E, aqui entre nós, também usamos o mesmo sufixo eiro para indicar a origem ou a procedência de quem nasceu nas Minas Gerais: o mineiro.

A palavra brasileiro designava, no período colonial, aquele que vivia de explorar e fazer comércio com o pau-brasil, madeira de cor de brasa de grande valor comercial à época. O sufixo eiro, nesse caso, tem, entre outras funções, a de assinalar uma ação ou uma função como em madeireiro, mineiro, pistoleiro, grileiro ou garimpeiro. Todavia, o adjetivo pátrio brasileiro indica a origem colonial dos que aqui chegavam e o que vinham fazer aqui. O Superdicionário da Língua Portuguesa, da editora Globo, (2000, Fernandes, F.; Luft, C.P. e Guimarães, F.M.) assinala que brasileiro, além de ser aquele ou aquela “natural ou habitante do Brasil” também é o “português que residiu no Brasil e que voltou rico à sua pátria”. È interessante observar que embora a língua portuguesa nos ofereça sinônimos para brasileiro, como brasiliense, brasilense e brasiliano essas
variantes são desprezadas.

O termo brasileiro para designar o natural do Brasil começa a ser consagrado na primeira Constituição Política do Império do Brasil, em 1824. Era natural que um novo marco jurídico para conformar as regras do jogo no território que recém se tornava independente tivesse que nomear e diferenciar os nascidos no novo território. No nosso continente, até mesmo o nome, América, se afirmou como contraposição às metrópoles pela necessidade de afirmação da elite criolla que se emancipava. Afinal, se queriam daqui e não mais de lá. Até então, a expressão Índias Ocidentais era amplamente usada como designação, sobretudo pelos espanhóis para as terras que, depois, seriam denominadas americanas.

Nos Estados Unidos, primeiro país a fazer uma revolução de libertação nacional no mundo, em 4 de julho de 1776, a expressão american foi brandida com força pelos revolucionários para se diferenciarem dos colonizadores ingleses. Enfim, o termo América só se consagra a partir dos ideólogos das elites criollas contra as antigas metrópoles. O mesmo ocorreu com o regime republicano que passou a vigorar em todos os países da América que faziam a sua independência como forma de auto-afirmação das antigas metrópoles onde imperavam as monarquias. Exceto o Brasil que permaneceu com regime monárquico e se proclamou Império e, com isso, se diferenciando de todas as demais novas nações que nasciam no continente e não o fez sem um ar de superioridade por fazer suas as antigas instituições das metrópoles européias. Enfim, a colonialidade havia deitado raízes profundas.

Talvez essa continuidade portuguesa nos ajude a entender o porquê da escolha pelas elites do
adjetivo pátrio brasileiro e não brasiliano ou brasiliense. Afinal, brasileiro é o “português que residiu no Brasil e que voltou rico à sua pátria”. Explorar o Brasil é o ser do brasileiro. Nos tempos da exploração da borracha na Amazônia dizia-se que o único crime que lá se cometia era não voltar de lá rico, conforme registra o ensaísta amazonense Samuel Benchimol. É ele quem nos conta que à entrada do rio Purus, o mais rico na exploração de borracha, havia uma ilha chamada Consciência, que era onde você devia deixar a consciência antes de subir o rio para não se lembrar do que você havia feito quando voltasse do alto rio. Não à toa, no interior do Nordeste, o paroara,
aquele que voltava rico da Amazônia, era visto como tendo uma riqueza amaldiçoada.

Assim tem sido o objetivo da ocupação do nosso território com grande influência na formação do caráter dos que aqui nascem. Não creio que estamos diante de um fato isolado, nem tampouco de fatos amazônicos.

Tudo indica que a atual onda expansionista em nome do desenvolvimento do Brasil, contra a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pampa, contra a Mata Atlântica e contra a Mata de Araucária, que nunca foram vazios demográficos, é ser contra os que tradicionalmente ocupam nosso território. Enfim, está sendo atualizado o brasileiro. E brasileiro tem sido exatamente isso: aquele que vive de explorar o Brasil. Não é natural ser brasileiro. É uma opção. De minha parte, nasci no Brasil, mas não sou brasileiro. Sou brasiliano. Felizmente, para não ser acusado de apátrida, os nossos dicionários me dão essa opção.

Fonte: IELA - Instituto de Estudos Latino Americano.

 

 

 

 

 

Temperatura na Antártica chega a 20,75ºC e bate novo recorde

Pesquisador brasileiro fez o registro que ainda precisa ser confirmado por Organização Meteorológica Mundial.

 

No último domingo (9), a Antártica registrou temperatura acima dos 20 graus pela primeira vez no registro histórico, trazendo atenção à questão da crise climática.

Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, o cientista Carlos Schaefer, do projeto Terrantar, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirmou que estão acompanhando a tendência de aquecimento em muitos dos locais, "mas nunca vimos nada parecido com isso", declarou.

Na entrevista, Schaefer disse que a temperatura do arquipélago de James Ross, região onde foi feito o registro, tem estado irregular nos últimos 20 anos - que após o resfriamento na primeira década deste século, aqueceu rapidamente.

Segundo recorde

 No dia 6 de fevereiro, um pesquisador argentino na base Esperanza, localizada no extremo norte da Península Antártica, havia registrado 18,3ºC,

Base Esperança, na Península Antártica  — Foto: Arte/G1

Base Esperança, na Península Antártica — Foto: Arte/G1

 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) ainda tem que confirmar o recorde de temperatura. No último registro, a OMM havia alertado que o aumento da temperatura pode acelerar o derretimento das camadas de gelo e da subida do nível do mar.

"(Esta) não é uma cifra que você associaria normalmente com a Antártida, nem no verão. Isso bate o recorde anterior de 17,5ºC, que foi estabelecido em 2015", disse no início de fevereiro a porta-voz da OMM, Clare Nullis.

 

 

Estudantes fazem checagem de fatos contra boatos sobre a Ciência

 

Estudantes do Ensino Médio utilizam do método científico e jornalístico para acabar com a circulação de informações falsas ou incorretas
Foto: Wilian Olivato

Por: Mariana Lima

Dúvidas levantadas por estudantes do Ensino Médio no Colégio Super Ensino, em Ourinhos, interior de São Paulo, estão sendo checadas pelos próprios estudantes.

Os questionamentos, que têm origem nas redes sociais e em correntes do WhatsApp, são ouvidas pelo professor de Biologia Estêvão Zilioli, que, com o objetivo de diminuir a circulação de informações falsas, criou há 2 anos o projeto HoaxBusters.

O projeto, construído junto com os alunos, utiliza da checagem de fatos e da investigação científica para classificar e separar as informações verídicas e as falsas.

Com o projeto em funcionamento, o professor teve que mudar de postura. Antes, apenas respondia se as informações trazidas pelos alunos eram verdadeiras ou não, e explicava o porquê de não fazerem sentido.

Depois de tantos questionamentos, um dia ele resolveu mudar a tática: agora os alunos deveriam investigar e trazer o resultado de suas pesquisas para a sala de aula, para então debaterem a informação.

Logo os alunos começaram a perceber por conta própria que as mensagens não faziam sentido, sendo apenas uma tentativa para enganar as pessoas. Com essa motivação, Estêvão começou a incentivar os alunos a irem atrás das fontes primárias de pesquisa.

Durante uma das aulas de Estêvão, um dos alunos informou que recebeu uma mensagem no WhatsApp que dizia que o chá de anis tinha o mesmo princípio ativo do Tamiflu, um medicamento usado no tratamento da gripe H1N1.

O professor já desconfiava que fosse mentira, mas colocou os estudantes para descobrirem. Uma dupla descobriu a resposta: o princípio ativo do remédio pode ser adquirido a partir de uma substancia obtida no anis, no entanto, requer que ela passe por diversas reações em laboratório.

No final, a informação recebida por mensagem era uma simplificação exagerada de um fato que leva a conclusões precipitadas.

Em entrevista ao portal Nova Escola, Estêvão ressaltou a importância da aproximação entre os métodos utilizados por pesquisadores e repórteres. “Jornalismo bem feito e ciência bem feita são coisas muito parecidas”.

Estêvão buscou formas de se preparar para orientar os alunos no projeto através de workshops, como o da Agência Lupa. O projeto funciona no contraturno escolar, como uma atividade extracurricular através de oficinas optativas para os alunos do Ensino Médio.

O projeto cresceu ainda mais em 2018, quando o professor foi selecionado para o programa Google Innovator, do Google for Education. Desde então, o professor promove encontros semanais com um grupo de 15 alunos do Ensino Médio que participa de forma voluntária das checagens.

Fonte: Nova Escola

 

José Pacheco: aula não ensina, prova não avalia

Em entrevista, fundador da Escola da Ponte fala sobre inovações educacionais, formação de professores e produção de conhecimento

Criada em 1976, a Escola da Ponte inspirou muitos educadores com seu modelo inovador de ensino e gestão, marcado pela ausência de salas de aula, séries, disciplinas e aulas propriamente ditas. Tudo acontece em pequenos grupos para permitir que os alunos manifestem suas curiosidades e aprendam a partir delas. As crianças e jovens participam ativamente da gestão da escola e, não raro, são eles que recepcionam os milhares de visitantes que desembarcam em Portugal até hoje para conhecer a instituição idealizada por José Pacheco.

Nascido em 1951, o educador se tornou uma das vozes mais críticas ao modelo tradicional de ensino e segue propondo alternativas a ele com a participação em diversos projetos educacionais, muitos deles no Brasil. Ao longo de sua trajetória, Pacheco também formou professores, um dos temas da entrevista que segue. Confira.

Como o senhor avalia os cursos de formação de professores?

Fui formador de professor na universidade, portanto, qualquer crítica que eu possa fazer recai imediatamente sobre a minha pessoa. Além de formador, também fui avaliador de cursos de formação, consultor de formação, integrei o Conselho Nacional de Educação de Portugal. Também fiz uma dissertação de mestrado sobre formação. Tudo isso para concluir que formar é impossível, mas transformar é necessário e aprender é inevitável. No Brasil, e em outros países do mundo, a situação é caricata.

Na universidade, escutamos que o centro do trabalho pedagógico deve ser o aluno. Cada vez mais se fala do protagonismo juvenil, da autonomia do aluno. Porém, o mesmo professor que fala isso dá aulas. Ou seja, quem está no centro é ele. Das duas uma: ou temos um tipo muito estranho de esquizofrenia ou estamos perante uma situação antiética.

Aula é um dispositivo pedagógico do século 19 que não faz mais sentido hoje. A formação que temos pertence ao paradigma da instrução, quando deveríamos nos guiar pelo paradigma da aprendizagem e até pelo paradigma da comunicação. Em vez de aulas, deveríamos ter oficinas, círculo de estudos, projeto de formação, tertúlia… por que não?

O modo como o professor aprende é o modo como ele ensina.

Vejo na internet que há cursos para desenvolver habilidades socioemocionais, cursos com metodologias ativas. Mas metodologias ativas em sala de aula? Vamos ser sérios e honestos! O professor pode falar de habilidades socioemocionais, competências do século 21, mas o que fica é a vivência.


 A aula não serve para nada, a não ser para manter o emprego do professor na universidade.

E isso vale para os adultos também?

Sim, nós não aprendemos o que o outro diz, nós aprendemos o outro. Professor não transmite aquilo que diz, mas aquilo que é. Outro ponto é que, tradicionalmente, a formação visa capacitar alguém ou algo. Ou seja, considera que o destinatário da formação é um objeto de formação. Mentira! Não é objeto. O professor em formação deve se assumir como sujeito de aprendizagem em autoformação, pois toda a aprendizagem do século 21 é autoformação, com reelaboração de sua cultura pessoal e profissional.

Outra crítica que faço recai sobre a predominância da teoria. O candidato a professor escuta alguém falando de algo, dos Piagets da vida, mas é inútil encher a cabeça das pessoas antes da prática. O que importa é partir dos problemas de ensino para, através da pesquisa, procurar a teoria que os resolva. Está tudo invertido.

Quando ingressei em uma instituição de formação inicial, dentre as várias em que trabalhei, me entregaram uma lista com o nome de alunos e disseram que eu deveria instruí-los a assinar o papel na entrada e na saída.

Mas como se pode formar professores autônomos e responsáveis dessa forma? Depois disseram que eu teria três turmas. Quando disse que não trabalharia com turmas, perguntaram como eu daria aulas. Respondi que também não daria aulas. Era só o que faltava! Já não dava aulas há mais de 20 anos. Para que serve uma aula? Para nada. Isso aconteceu na maior instituição de formação de Portugal.

Quando foi isso?

Há 30 anos. E hoje esses jovens estão entre os 40 e os 50 anos de idade. Um deles, aliás, é meu filho. São eles que, neste momento em Portugal, conseguiram que o país ultrapassasse a Finlândia no Pisa. Por quê? Porque não dei aula e construí com eles e não para eles um projeto de vida profissional. Por meio de roteiros de estudo, eles fizeram pesquisas em um tempo em que não havia computador muito menos internet. Eles aprenderam a pesquisar e a avaliar, pois eu também não dava provas.  Trabalhava com portfólios de avaliação, com evidências da aprendizagem. Eles trabalhavam em equipe e seguiram assim nas escolas, nunca atuando isoladamente.

Essa ideia de que aula não ensina e prova não avalia implica uma refundação da escola. O senhor vislumbra esse caminho?

O que defendo no lugar de tudo isso é uma nova construção social da aprendizagem, e não a adoção de paliativos, como aula invertida ou essas coisas que inventam por aí. Ioga e meditação são importantes, mas não é por aí que vamos mudar as coisas. O modelo educacional que nós temos foi criado no século 19, na Inglaterra da Revolução Industrial. Nós estamos na 4ª Revolução Industrial. A disciplina foi criada na Prússia militar. O padrão de tempo, o descanso no intervalo, tudo isso fazia sentido no século 19, mas hoje não mais. Será que as pessoas andam cegas?

O senhor critica as metodologias ativas. Mas elas não proporcionam vivências?

Não. Tenho uma grande consideração pelas pessoas que estão trabalhando com essas metodologias, mas isso não é mais do que um paliativo. A aula continua.

A aula invertida não é inovação, pois Célestin Freinet, na década de 1920, fez isso quando criou os ficheiros autocorretivos.

Quando os alunos não conseguiam entender por meio dos ficheiros, eles vinham ter com o professor. A diferença é que o Freinet não tinha computador. Os princípios gerais da aprendizagem segundo Bruner e Vygotsky, para ficar só com estes, são fundamentalmente estes: a aprendizagem precisa ser significativa, integradora, diversificada, ativa e socializadora. Isso em uma sala de aula é impossível, portanto, vamos levar isto a sério? Em vez de escreverem teses de doutorado que não servem para nada, por que as pessoas não vão fazer aquilo que é preciso?

Aula não serve para nada, a não ser para manter o emprego do professor na universidade.  

Na educação básica, nós temos algumas escolas que vão nessa linha apontada pelo senhor como a própria Escola de Ponte e outras. Mas e no ensino superior?

Não tem nenhuma. Eu estive recentemente em uma universidade brasileira em um encontro sobre inovação. Uma senhora disse que o modelo daquela instituição era inovador, mas tudo acontecia em sala de aula. Eu questionei esse ponto e foi um escândalo. Nunca mais me convidaram. O Brasil tem excelentes universidades, excelentes professores universitários, tenho grandes amigos no ensino superior. Mas, não sei por quê, todos continuam dando aula.

Hoje eu nem falo do paradigma da aprendizagem, pois o centro é a relação. Nós aprendemos na intersubjetividade, mas a universidade nem sequer chegou ao paradigma da aprendizagem. Nem isso. Quem fez isso foi a Escola da Ponte, há mais de 40 anos. O projeto Âncora também.

Então se a universidade não consegue fazer aquilo que a Ponte fez há 40 anos, como que há inovação? A inovação tem vários critérios, aliás. Primeiro: tem que ser inédito, e eu não vejo nada de inédito por aí. Depois tem de ser replicável e estar permanentemente em fase instituinte; nunca pode parar de se atualizar. Também é importante que tenha sustentabilidade e fundamentação científica contemporânea – Morin, Castells, Papert, Maturama, Augustinho da Silva, Paulo Freire. Depois, finalmente, tem de ter utilidade. Se esses paliativos não logram educação a todos, eles são inúteis. 

A má qualidade da educação básica é atribuída à formação dos professores e também ao perfil dos alunos que optam pela carreira docente. Há levantamentos que mostram que são os alunos mais fracos no Enem que escolhem a profissão. Qual é a relevância desse aspecto em sua opinião?

Esse aspecto é um problema sim, e não apenas no Brasil. Em Portugal quando um jovem completa o ensino médio e pretende entrar na universidade ele faz uma seleção de dez cursos, começando pelos que mais deseja cursar. O curso de Pedagogia sempre aparece em 9º e 10º lugares. Ou seja, o jovem quer ser médico, psicólogo ou arquiteto, mas coloca Pedagogia por último porque sabe que vai entrar mesmo com uma pontuação ruim.

Hoje a maioria dos cursos acontece a distância, sem qualquer contato com o aluno. Já os presenciais acontecem à noite e quem participa são pessoas das classes C, D e F. Pessoas maravilhosas, mas que não sabem interpretar um texto, que estão à espera de inovação em seu estatuto social, o que é legítimo. Mas eles chegam com uma preparação insuficiente do ensino médio e têm uma formação deficiente depois.

O senhor já declarou que a pesquisa brasileira parece literatura de cordel, um citando o outro. Por que essa avaliação?

A pesquisa na área de educação é meio literatura de cordel, sim. “Piaget disse, Vygostky disse…” Não sou fofoqueiro, não quero saber o que Piaget disse. Eu quero produção de conhecimento, e isso não existe. É um discurso redundante, eu te cito, tu me citas… E pensar que as ciências da educação são o eixo, o centro de toda a atividade de aprendizagem.

O problema é que todo mundo que escreve sobre ciência da educação está a leste de tudo o que seja ciência da educação ou então estudou ciência da educação em aula. É preciso saber filosofia da educação, história da educação, sociologia da educação, as várias psicologias da educação, antropologia da educação… Quem escreve sobre educação, e não só no Brasil, raramente escreve algo que seja produção. Eles apenas fazem citações. Sei que falar essas coisas ofende. Não por acaso, me tornei persona non grata para muita gente, mas fazer o quê…

  

 

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